Da fundação como Esporte Clube Comercial em 1942 até os dias de hoje — a história do clube que é a paixão dos marilienses

Por ComMarília


Se você é de Marília, não importa se você vai ao estádio todo domingo ou se nunca pisou no Abreuzão. O Marília Atlético Clube faz parte da sua vida. Ele está nas conversas de bar, nas camisas azul celeste que aparecem nas ruas em dia de jogo, nas memórias do avô que viu o time vencer o Santos na Vila Belmiro, nas histórias do pai que chorou quando o MAC subiu pra elite do futebol paulista.

Neste 12 de abril de 2026, o Tigrão completa 84 anos de fundação. E a história desse clube — que nasceu modesto, mudou de nome, mudou de cor, foi desativado, ressurgiu, conquistou títulos, revelou craques e se tornou a identidade esportiva de uma cidade inteira — merece ser contada como ela é: épica.


O começo: nasce o Esporte Clube Comercial

A história começa em 12 de abril de 1942, quando o dentista Benedito Alves Delfino fundou o Esporte Clube Comercial. O primeiro presidente foi o farmacêutico Guido Rossini — avô do zagueiro Márcio Rossini, que décadas depois se tornaria um dos maiores ídolos da história do clube. A sede ficava na Avenida Sampaio Vidal, no prédio número 628, e o uniforme era vermelho e branco.

Nos primeiros anos, o Comercial disputou apenas competições amadoras organizadas pela Liga Municipal e pela Federação Paulista. O time atraía poucos torcedores — o nome “Comercial” soava elitista para a população e não gerava a identificação que o futebol exige. A cidade já tinha outro representante no futebol profissional, a Associação Atlética São Bento, que participava dos campeonatos da Federação Paulista desde 1944.

Foi em 1947 que tudo mudou. Uma nova diretoria assumiu o controle do clube e, em Assembleia Geral Extraordinária realizada no dia 11 de julho, decidiu por unanimidade mudar o nome para Marília Atlético Clube. A mudança não foi apenas no nome: as cores também mudaram. O vermelho e branco deu lugar ao azul celeste e branco — uma decisão estratégica, já que o vermelho era a cor do arquirrival Esporte Clube Noroeste. Nascia o MAC. Nascia o Alviceleste.


O profissionalismo e os primeiros passos

Apesar da mudança de nome e de cores, o Marília continuou como clube amador por mais alguns anos. O profissionalismo só chegou em 1953, quando o MAC estreou no Campeonato Paulista da Segunda Divisão, ocupando a vaga deixada pelo São Bento, que havia se licenciado.

O primeiro jogo oficial como agremiação profissional foi um amistoso realizado em 7 de setembro de 1953, no Estádio Bento de Abreu, contra o Rio Claro. Na estreia no campeonato estadual, o adversário foi justamente o rival Noroeste, no Abreuzão, em 29 de novembro de 1953. O jogo terminou empatado em 0 a 0 — mas a rivalidade que já existia desde os tempos do São Bento ganhou contornos ainda mais intensos.

No Campeonato Paulista da Segunda Divisão de 1954/55, o MAC mostrou pela primeira vez o seu potencial ofensivo: aplicou uma goleada de 10 a 2 sobre o Corinthians de Presidente Prudente, no Abreuzão — um resultado que por muitos anos foi a maior goleada da história do clube em competições oficiais.

Mas o futebol em Marília vivia tempos difíceis. Sem recursos financeiros e com dificuldade para manter o elenco, o clube acabou se afastando das competições oficiais em 19 de abril de 1954. O MAC ficaria fora do futebol profissional por longos 15 anos.


O Tigre escolhido pelo povo

Em 7 de julho de 1969, o Marília Atlético Clube renasceu. Uma assembleia realizada no Grepan oficializou o retorno do clube ao futebol profissional, sob a presidência do vereador Pedro Sola. As cores foram confirmadas como azul celeste e branco, e o mascote — o Tigre — foi escolhido em um concurso popular. A partir daquele momento, o MAC nunca mais deixaria de ser uma agremiação profissional.

O retorno definitivo foi marcado por um amistoso contra o São Paulo Futebol Clube, no Estádio Bento de Abreu, em 28 de fevereiro de 1970. O MAC perdeu por 3 a 1, mas o resultado pouco importava: o Tigrão estava de volta, e dessa vez seria para sempre.


1971: o ano que mudou tudo

Se existe um ano que define a história do Marília Atlético Clube, esse ano é 1971. Foi quando o MAC conquistou o título do Campeonato Paulista da Série A2, garantindo pela primeira vez o acesso à elite do futebol paulista.

O gol que sacramentou o título foi marcado de cabeça por Ivo Picerni, em uma vitória por 1 a 0 sobre o SAAD, no Parque Antártica. A conquista levou Marília ao delírio. O time voltou para a cidade como herói, e o Abreuzão se tornou, definitivamente, o templo sagrado do futebol mariliense.

Em agosto de 2021, cinquenta anos depois, ex-atletas daquela equipe histórica — incluindo Jorginho, Márcio Rossini e Luís Silvio — se reuniram no Yara Clube para celebrar o jubileu de ouro do título que mudou a história do futebol na cidade.


O Abreuzão: a casa do Tigrão

O Estádio Bento de Abreu Sampaio Vidal — o Abreuzão — foi inaugurado em 1967 e se tornou a casa do MAC e o palco dos maiores momentos do futebol mariliense. Com capacidade para aproximadamente 18 mil torcedores, o estádio já recebeu jogos históricos contra os maiores clubes do Brasil.

O nome homenageia Bento de Abreu Sampaio Vidal, político e fazendeiro que foi uma das figuras mais influentes na história da região de Marília. O estádio fica na Avenida Vicente Ferreira e é um dos cartões-postais esportivos da cidade.


Na elite: o MAC contra os gigantes

A partir de 1975, o Marília passou a disputar a Divisão Especial do Campeonato Paulista — a elite do futebol do estado. E logo na estreia, mostrou que não estava ali para figurar.

No dia 2 de março de 1975, o MAC enfrentou o Santos na Vila Belmiro e venceu de virada por 2 a 1. Os gols foram de Itamar e Nelson Lopes, e o time era comandado pelo técnico Wilson Francisco Alves, o “Capão”. Uma equipe do interior paulista vencendo o Santos dentro da Vila Belmiro na estreia — a notícia correu o Brasil e colocou Marília no mapa do futebol nacional.

Naquele Paulistão, o MAC terminou na 13ª colocação entre 19 clubes, com um primeiro turno impressionante: sétimo lugar, com sete vitórias, seis empates e apenas cinco derrotas. Enfrentou São Paulo, Palmeiras, Corinthians e os maiores clubes do estado de igual para igual.


1979: campeão da Copinha

Se o título de 1971 colocou o MAC no mapa, a conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1979 mostrou que o clube sabia formar talentos. Sob o comando do técnico Walter Zaparolli e com a coordenação de base do lendário Pupo Gimenez, o Maquinho (como é chamado o time de base do MAC) conquistou o título mais importante das categorias de base do Brasil.

Pupo Gimenez é uma figura central nessa história. Desde os anos 1970, ele coordenou as categorias de base do Marília e revelou uma geração inteira de craques que brilharam no futebol brasileiro: Márcio Rossini, que foi para o Santos e o Bangu; Carlos Alberto Borges, que jogou no Palmeiras; Sérgio Nery, destaque no Guarani; Paulo César Borges, que defendeu Cruzeiro e Flamengo; e Jorginho Putinati, que brilhou no Palmeiras — e que Pupo considerava tecnicamente superior a Kaká.


Craques que vestiram o azul celeste

A camisa do MAC foi vestida por nomes que marcaram a história do futebol brasileiro. O mais ilustre de todos foi Jurandir de Freitas, o zagueiro mariliense campeão do mundo com a Seleção Brasileira na Copa de 1962, no Chile. Depois de uma década gloriosa no São Paulo Futebol Clube, Jurandir voltou a Marília e estreou pelo MAC em 4 de junho de 1972, em um amistoso contra o Atlético Mineiro — que era o atual campeão brasileiro. O MAC venceu por 2 a 1, no Abreuzão.

Serginho Chulapa, que depois se consagraria como ídolo do São Paulo, também passou pelo MAC em 1973, ainda jovem. Norberto Lopes, o técnico que mais vezes comandou o Marília na história (164 jogos ao longo de nove passagens diferentes), é outro nome inseparável da trajetória do clube. Até Paulo Autuori, um dos treinadores mais respeitados do futebol brasileiro, passou pelo banco do Tigrão.


2002: o segundo acesso e a Série B

Em 2002, o MAC viveu seu segundo grande momento de glória. O time conquistou o bicampeonato da Série A2 do Campeonato Paulista, com uma vitória por 3 a 0 sobre a Francana na final. O acesso levou o Marília de volta à elite do futebol paulista e abriu as portas para a disputa do Campeonato Brasileiro da Série B.

Entre 2004 e 2007, o MAC disputou a Série B do Brasileirão, enfrentando clubes de todo o país e levando o nome de Marília para estádios do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre. Foi o período de maior projeção nacional do clube.

No Campeonato Paulista, o MAC chegou a disputar a Série A1 em 2005 e 2007, medindo forças mais uma vez com Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos — os mesmos gigantes que o Tigrão havia enfrentado décadas antes.


A rivalidade com o Noroeste

Não se pode contar a história do MAC sem falar do Noroeste. A rivalidade entre os dois clubes é uma das mais antigas e intensas do interior paulista. Ela nasceu antes mesmo do Marília existir — nos tempos do São Bento — e se intensificou quando o MAC adotou as cores azul celeste justamente para se diferenciar do rival vermelho.

Os clássicos entre MAC e Noroeste no Abreuzão são capítulos à parte na história esportiva de Marília. Jogos de alta tensão, estádio lotado, paixão transbordando das arquibancadas. Essa rivalidade é parte fundamental da identidade esportiva da cidade e alimenta o futebol local há mais de sete décadas.


Tempos recentes: resiliência e recomeço

Como todo clube do interior, o MAC viveu momentos de dificuldade. Em 2016, foi rebaixado para a Série A3, e em 2018 desceu para a Quarta Divisão do Campeonato Paulista. Mas o Tigrão mostrou a garra que o mascote exige: em 2019, conquistou o vice-campeonato da Quarta Divisão e garantiu o retorno à Série A3.

Fora do campeonato estadual principal, o MAC brilhou na Copa Paulista, conquistando o título em 2020 e novamente em 2022 — dois troféus que reafirmaram a capacidade competitiva do clube mesmo em momentos de reconstrução.

Em 2026, o Marília disputa a Série A3 do Campeonato Paulista, com o sonho de mais um acesso e de devolver ao Abreuzão as noites de glória que a torcida merece.


84 anos de paixão

O Marília Atlético Clube não é apenas um time de futebol. É um pedaço da identidade de Marília. É o grito de gol que ecoa pelas ruas do centro em dia de jogo. É a camisa azul celeste que o avô guarda no armário com carinho. É a lembrança de ter estado no Abreuzão naquela noite mágica em que o Tigrão venceu um jogo impossível.

De Esporte Clube Comercial a Marília Atlético Clube. De vermelho e branco a azul celeste e branco. De amador a profissional. De desativado a campeão. O MAC já caiu e se levantou tantas vezes que a resiliência virou parte do seu DNA.

Neste aniversário de 84 anos, o ComMarília saúda o Tigrão e toda a torcida maqueana. Que venham mais décadas de história, de garra e de paixão.

Azul celeste é a cor. Marília é o nome. Tigrão é a alma.