Marília: A Capital Nacional do Alimento

A história de como uma cidade do interior de São Paulo se tornou a potência que alimenta o Brasil e exporta para o mundo inteiro

Por ComMarília


Se você já viveu em Marília, sabe do que estamos falando. Aquele cheiro inconfundível de biscoito assando que toma conta de alguns bairros da cidade no fim da tarde. Aquela sensação de entrar num supermercado em qualquer estado do Brasil e encontrar, na prateleira, um produto que nasceu nas fábricas da nossa cidade. Aquele orgulho silencioso de saber que a bala que uma criança está chupando no Nordeste, o biscoito que uma família está comendo no Sul, o chocolate que alguém está saboreando em Portugal — tudo isso saiu daqui. De Marília.

O título de Capital Nacional do Alimento não é uma força de expressão, não é marketing e não é exagero. É o que todo mariliense já sabe: a nossa cidade alimenta o Brasil.

Mas como uma cidade de pouco mais de 200 mil habitantes no interior de São Paulo chegou a esse patamar? A resposta está numa combinação de vocação, ousadia e trabalho duro que começa lá atrás, nas lavouras de café dos anos 1920, e desemboca numa das maiores concentrações de indústrias alimentícias do planeta.


Do café ao biscoito: as raízes da vocação alimentícia

Quando Marília foi fundada oficialmente em 1929, a economia da cidade girava em torno do café. As fazendas da região produziam grãos que seguiam pela ferrovia até o porto de Santos e de lá para o mundo. O café era o rei, e a terra vermelha de Marília era o seu trono.

Mas o café, como toda monocultura, tinha os seus ciclos de crise. Quando os preços despencaram nas décadas seguintes, os produtores marilienses precisaram se reinventar. Muitos migraram para o algodão. Outros começaram a experimentar com pequenas produções de alimentos processados — óleos, farinhas, conservas. A partir de 1934 e 1935, as primeiras fábricas de óleo de amendoim e de algodão surgiram na cidade, marcando o início de uma transformação que mudaria para sempre o destino de Marília.

Foi esse espírito empreendedor — essa capacidade de olhar para a crise e enxergar oportunidade — que plantou a semente da vocação alimentícia da cidade. O café trouxe a ferrovia, a ferrovia trouxe a infraestrutura, a infraestrutura trouxe as indústrias. E as indústrias trouxeram o futuro.


Marilan: o forno à lenha que virou império

De todas as histórias que compõem a saga alimentícia de Marília, nenhuma é mais emblemática do que a da Marilan. Ela é, em muitos sentidos, a própria história da cidade.

Tudo começou em 1956, quando o casal Maximiliano Garla e Iracema Fontana Garla decidiu se mudar para Marília com um objetivo claro: produzir biscoitos. Maximiliano, nascido em Piratininga em 1922, e Iracema chegaram à cidade com pouco mais do que as próprias mãos, uma receita e uma convicção.

Em 31 de março de 1957, a Indústria de Biscoitos Marilan Ltda. foi inaugurada num prédio modesto na Rua Liberdade. O equipamento era um forno estilo padaria, aquecido à lenha. A produção inicial era pequena e artesanal: biscoitos Maria, Água e Sal, Coco e Maizena. Os clássicos que todo brasileiro conhece.

O nome “Marilan” não foi escolhido pelo casal. Foi a própria comunidade de Marília que batizou a empresa, através de um concurso divulgado numa rádio local. Uma junção de “Marília” com algo mais — um nome que nascia da cidade e pertencia a ela desde o primeiro dia.

O crescimento foi gradual, mas imparável. Quando a empresa conseguiu um forno industrial chamado “Super Vulcão”, a produção saltou para 300 quilos por hora. No final dos anos 1960, já eram mais de 600 quilos por hora saindo da fábrica.

Na década de 1970, a família Garla tomou a decisão que mudaria a escala do negócio: investir num novo complexo industrial. Em 1976, foi inaugurado o parque fabril com 67 mil metros quadrados. Na época, a empresa empregava 250 funcionários e os processos manuais davam lugar a equipamentos automatizados.

Nos anos 1990, a Marilan atingiu a marca impressionante de 84 mil toneladas de biscoitos produzidos por ano, com 1.300 colaboradores diretos. Maximiliano Garla recebeu o prêmio de Empresário do Ano em 1995 e o título de Cidadão Mariliense em 1997. Em 2017, seus três filhos — José Rubis, José Geraldo e José Carlos Garla — também foram homenageados com o mesmo título pela Câmara Municipal.

Maximiliano faleceu em agosto de 2013, aos 91 anos, mas o legado que ele e Iracema construíram continua mais vivo do que nunca. Hoje, o Grupo Marilan é o segundo maior fabricante de biscoitos do Brasil. A empresa possui mais de 4.500 colaboradores, cinco fábricas (em Marília, Jandira, Itapevi, São José dos Pinhais e Igarassu), mais de 20 lojas de fábrica no estado de São Paulo e um portfólio com mais de 200 produtos distribuídos pelas marcas Marilan, Casa Suíça, Teens, Lev, Pit Stop, Top Cau e Festtone.

Os produtos da Marilan estão presentes em mais de 70% dos lares brasileiros e são exportados para mais de 50 países em todos os continentes. A fábrica de Marília opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, com capacidade para produzir até 220 mil toneladas por ano — o equivalente a 80 milhões de unidades de biscoitos fabricados por dia.

De um forno à lenha numa rua modesta para uma operação que alimenta o Brasil inteiro. Essa é a Marilan. Essa é Marília.


Dori: a doceira que adoçou o país

Se a Marilan é a rainha dos biscoitos, a Dori é a soberana dos doces. E a história da sua fundação é tão mariliense quanto se pode imaginar: uma mulher, uma cozinha e um sonho.

No dia 8 de maio de 1967, Doraci dos Santos Spila fundou uma pequena empresa individual na própria casa. A produção era totalmente artesanal: pipoca e amendoim feitos à mão, vendidos com a marca “Guri”. Doraci — ou Dori, como era chamada por todos — transformava a sala da sua residência numa pequena fábrica de confeitos.

Na década de 1970, o marido de Doraci, Augusto Spila, que trabalhava como técnico de rádio, largou o emprego para se juntar ao negócio. Os filhos do casal também entraram na sociedade. Em 1976, a empresa se mudou para um salão de 500 metros quadrados na Avenida República e ganhou oficialmente o nome “Dori” — uma homenagem carinhosa à fundadora.

O ponto de virada veio em 1988, quando o empresário João Baptista Barion adquiriu 62% da empresa. Barion, que já tinha experiência no setor alimentício (ele e a família haviam comandado a Ailiram, fábrica que depois foi vendida ao grupo Nestlé), injetou capital, visão e ambição na Dori. Quando ele assumiu, a empresa produzia cerca de 350 mil quilos por mês com menos de 100 empregados. A transformação foi rápida e radical.

Um ano depois da aquisição, Barion comprou a fábrica de balas e pirulitos “Ouro Verde” em Rolândia, no Paraná, ampliando a capacidade produtiva. Em 1992, novas filiais comerciais foram abertas em São Paulo e Porto Alegre. Em 2003, foi inaugurado um Centro de Distribuição de 10 mil metros quadrados em Marília, com capacidade para armazenar 6,5 milhões de quilos de produtos.

A Dori cresceu até se tornar uma das maiores fabricantes de doces e snacks do Brasil. Suas marcas são conhecidas de norte a sul: Dori, Pettiz, Jubes, Gomets, Disqueti, Bolete, Deliket, Yorgurte 100. A empresa é líder nacional no segmento de amendoim e referência em balas, gomas e confeitos.

Em 2020, a Dori conquistou o primeiro lugar na categoria “Grandes Empresas” no prêmio “Lugares Incríveis para Trabalhar”, do UOL e da FIA — um reconhecimento que vai além dos números e fala sobre a relação da empresa com seus colaboradores e com a cidade.

Em 2023, um novo capítulo se abriu: a Ferrara Candy Company, empresa associada ao Grupo Ferrero dos Estados Unidos — a maior empresa de balas e gomas do mercado americano — anunciou um acordo para adquirir a Dori Alimentos. A empresa que nasceu na cozinha de dona Doraci agora faz parte de um dos maiores conglomerados de doces do planeta.


Bel Chocolates: o amor que virou marca

A história da Bel tem um ingrediente que a torna especial: ela nasceu de uma homenagem de amor. Em 1976, Paulo Sérgio Zaparolli Dedemo fundou a empresa e a batizou com o apelido da esposa, Isabel. Bel.

Os primeiros chocolates eram fabricados artesanalmente, com receitas caseiras, numa produção familiar que lembrava os primeiros dias da Marilan e da Dori. A qualidade dos produtos conquistou o público local e depois o regional.

Em 1984, com o crescimento da demanda, a Bel transferiu suas instalações para o Jardim Santa Antonieta, na zona sul de Marília, onde mantém sua fábrica até hoje. A produção cresceu, o portfólio se expandiu — ovos de Páscoa, bombons, tabletes, barras — e a marca ultrapassou as fronteiras do estado de São Paulo.

Atualmente, a Bel Chocolates atende o mercado nacional inteiro e exporta para diversos países. É mais uma empresa que nasceu do empreendedorismo mariliense, cresceu com trabalho e hoje carrega o nome da cidade pelo mundo.


As gigantes que escolheram Marília

A vocação alimentícia de Marília não atraiu apenas empreendedores locais. Multinacionais de peso identificaram na cidade o ecossistema ideal para suas operações e decidiram instalar unidades industriais aqui.

A Nestlé, a maior empresa de alimentos do mundo, produz biscoitos e bolachas em Marília desde o início dos anos 2000. A operação se tornou integral a partir de 2006, e a fábrica mariliense é uma das unidades estratégicas da companhia no Brasil. A unidade fica na Avenida Castro Alves e emprega centenas de trabalhadores da região.

A Coca-Cola também mantém unidade industrial na cidade. Ambas as multinacionais figuram entre as maiores empresas do país em rankings como o Valor 1000 do jornal Valor Econômico.

Há também a Carino Ingredientes e Soluções, empresa mariliense com mais de 30 anos de atuação, especializada em ingredientes para a indústria alimentícia — recheios, inclusões, coberturas, drageados e biscoitos — que exporta para mais de 22 países e possui certificações internacionais de segurança alimentar.

A presença dessas empresas, somada às gigantes locais como Marilan e Dori, cria um ecossistema completo: fornecedores de matéria-prima, empresas de embalagem, transportadoras, laboratórios de qualidade, centros de formação profissional e uma mão de obra especializada que se transmite de geração em geração.


Os números que impressionam

Para dimensionar o que Marília representa para a indústria alimentícia brasileira, é preciso olhar para os números. E eles são de impressionar qualquer um.

A cidade abriga mais de 1.000 indústrias do setor alimentício. A produção mensal ultrapassa 32 mil toneladas de alimentos. O setor gera mais de 27 mil empregos diretos no município — o que significa que uma parcela enorme das famílias marilienses tem pelo menos um membro trabalhando na cadeia de alimentos.

Os produtos fabricados em Marília são distribuídos para todos os estados brasileiros, sem exceção. E as fronteiras do país ficaram pequenas: as exportações alcançam os cinco continentes. A Marilan exporta para mais de 50 países. A Dori também ultrapassa os 50 países. A Bel exporta para diversos mercados internacionais. A Carino atende clientes em mais de 22 países.

Segundo estimativas do setor, Marília responde por aproximadamente 12% da produção nacional de alimentos. É um número extraordinário para uma cidade de 240 mil habitantes.

O resultado econômico é visível. A Marilan registrou receita líquida de R$ 1,1 bilhão. A Dori alcançou R$ 940 milhões. Ambas figuram entre as 1.000 maiores empresas do Brasil no ranking Valor 1000, do jornal Valor Econômico. Somadas à Nestlé e à Coca-Cola — que também aparecem no ranking com suas unidades em Marília — a cidade tem quatro empresas entre as maiores do país.


Uma cidade que se orgulha do que faz

Existe algo único em Marília que vai além dos números e das fábricas. É uma cultura. Uma identidade. Um jeito de ser.

O mariliense cresce sentindo o cheiro de biscoito assando. Cresce sabendo que o amendoim japonês que todo mundo come no Brasil saiu daqui. Cresce vendo os caminhões carregados de produtos saindo das fábricas e levando o nome da cidade para o mundo.

Muitas famílias marilienses têm a própria história entrelaçada com a história das fábricas. O avô que trabalhou na primeira linha de produção da Marilan. A mãe que embalava balas na Dori. O pai que dirigia caminhão levando chocolates da Bel para São Paulo. São histórias pessoais que se misturam com a história coletiva da cidade.

Quando Doraci dos Santos Spila fazia pipoca na sala de casa em 1967, ela não imaginava que estava plantando a semente de uma empresa que seria comprada por um dos maiores grupos de doces do mundo. Quando Maximiliano e Iracema Garla acenderam o forno à lenha em 1957, não sabiam que seus biscoitos chegariam a 50 países. Quando Paulo Sérgio Dedemo homenageou a esposa Isabel no nome da sua fábrica de chocolates em 1976, não previa que a Bel se tornaria uma marca nacional.

Mas é assim que as grandes histórias acontecem. Começam pequenas, com um forno, uma receita e um sonho. E crescem até alimentar um país inteiro.

Marília é isso. A cidade que alimenta o Brasil. E que tem muito orgulho disso.